Poorna Swami The New York Review, 30 de agosto de 2026

Numa manhã abafada de fim de julho, quando dezenas de milhares de manifestantes se aglomeraram no centro de Nova Délhi para seguir em direção ao Parlamento, eles pareciam já ter a sensação de que sua marcha poderia ser histórica. A maioria era composta de estudantes e jovens formados, muitos dos quais haviam viajado de cidades a centenas de quilômetros de distância para participar de sua primeira manifestação. Enquanto eu me espremia pela multidão, vi cartazes com caricaturas de um homem de óculos e bigode acompanhadas pela palavra RENUNCIE em diferentes tipos de letra — uma referência à exigência central do ato: que o ministro da Educação da Índia, Dharmendra Pradhan, renunciasse depois de ter presidido a um desastroso vazamento de questões de exame. Mas quase tão comuns eram os retratos de revolucionários da luta pela independência da Índia: M. K. Gandhi, o líder dalit B. R. Ambedkar1 e, o mais onipresente naquele dia, Bhagat Singh.
Nascido em 1907 em Banga (no atual Paquistão), Singh tornou-se militante anticolonial em 1928, quando a Comissão Estatutária Indiana, composta de sete membros — conhecida popularmente como «Comissão Simon», em referência ao seu presidente, John Simon —, chegou à Índia para avaliar as condições para reformas constitucionais. À medida que percorria as cidades da colônia, a comissão, que não tinha nenhum integrante indiano, era recebida por multidões de manifestantes gritando «Simon, go back». Numa manifestação em Lahore liderada pelo nacionalista indiano Lala Lajpat Rai, a polícia espancou brutalmente os manifestantes; Rai morreu pouco depois em consequência dos ferimentos.
Singh e seus companheiros, buscando vingar a morte de Rai, planejaram assassinar o superintendente que havia autorizado a violência policial, mas acabaram matando o homem errado. Singh conseguiu escapar da prisão até quatro meses depois, em abril de 1929, quando ele e um camarada lançaram pequenas bombas não letais dentro da Assembleia Legislativa Central de Délhi, na esperança de provocar uma «revolução proletária». Em vez de fugir novamente, Singh permaneceu no local, gritou palavras de ordem revolucionárias e então se entregou. No julgamento amplamente divulgado que se seguiu, utilizou o tribunal para difundir uma mensagem anticolonial, especialmente para a juventude do país. Na prisão, entrou em greve de fome para exigir um tratamento melhor para os presos políticos indianos. Até a morte, sustentou que seus atos de violência não eram «ultrajes sem objetivo», mas movimentos políticos calculados rumo à liberdade. «Permitam-me anunciar, com toda a força de que disponho, que não sou um terrorista», escreveu da Prisão Central de Lahore em 1931, menos de dois meses antes de ser enforcado.
Num cartaz preso a uma cerca metálica à beira da estrada naquela manhã em Délhi, Singh aparecia numa moldura oval, ladeado por seus companheiros Rajguru e Sukhdev, executados com ele. Perto dali, um homem abria caminho pela multidão usando uma camiseta branca com letras feitas a marcador preto: «GLÓRIA A BHAGAT SINGH». Muitos dos cartazes e placas dos participantes reproduziam um retrato de estúdio específico de Singh com um chapéu de feltro inclinado para a esquerda. Nele, seu rosto está barbeado, exceto por um bigode fino e eriçado que mal disfarça sua aparência, de resto, quase juvenil. Sob uma reprodução da imagem naquele dia — num cartaz produzido por um grupo estudantil de esquerda — aparecia, em hindi, a frase: «Parece que vou ter de voltar, irmão.»
Embora os estudantes que protestavam de maneira não violenta utilizassem métodos muito diferentes dos de Singh, ele parecia, ainda assim, simbolizar algo central em sua luta. Em certo sentido, isso não era surpreendente. Quase oitenta anos depois de a Índia conquistar a independência, a retórica da integridade nacional continua dominando a vida pública, até mesmo nas conversas cotidianas. O Bharatiya Janata Party (BJP), partido nacionalista hindu do primeiro-ministro Narendra Modi, que governa o país desde 2014, afirma estar devolvendo à terra sua glória pré-colonial, enquanto seus críticos conclamam à defesa dos «verdadeiros» valores inclusivos da nação contra essas forças divisórias. Não é incomum que protestos indianos invoquem figuras históricas nesse espírito. Nos últimos anos, Gandhi e Ambedkar emergiram como um díptico que encarna os princípios constitucionais seculares sobre os quais a República indiana foi fundada, enquanto Singh — por muito tempo um emblema da política estudantil da esquerda radical — foi idealizado, e até apropriado, por grupos de todo o espectro político. A mitologia desse jovem febrilmente devotado ao seu país foi imortalizada em vários filmes de Bollywood, com diálogos empolgantes sobre como a «liberdade» era sua «noiva» e cenas violentas em que os britânicos o alimentavam à força durante sua greve de fome.
Mas sua renovada proeminência nesse protesto ainda parecia significativa. Aqueles cartazes e placas sugeriam ao mesmo tempo a crescente influência do ativismo estudantil de esquerda naquele momento e uma sensibilidade mais ampla entre a multidão. Ao recorrer a um líder estudantil do passado colonial, os muitos manifestantes sem filiação também pareciam argumentar que lutavam para reformar não apenas algumas políticas insustentáveis, mas a própria nação. Ao longo das quatro semanas em que os protestos ganharam força, essa retórica anticolonial de traços largos passou a ter implicações complexas. Permitiu que milhares de pessoas com orientações políticas divergentes se apresentassem como um coletivo justo e contestassem o monopólio de Modi sobre a linguagem da preservação nacional; mas também minimizou as divisões políticas reais entre os manifestantes e as preocupações das comunidades — especialmente as muçulmanas — que, nos últimos anos, arcaram com o peso maior da dissidência pública.
Os manifestantes invocavam com frequência o passado, mas os gatilhos diretos de seu movimento estavam firmemente no presente. Em maio deste ano, um grupo de especialistas contratado pela National Testing Agency teria vazado as perguntas do exame médico de admissão centralizado do governo depois que 2,27 milhões de candidatos haviam feito a prova. Não era, nem de longe, a primeira vez na história recente que os resultados de um grande exame público eram invalidados por negligência administrativa. Nos últimos cinco anos, pelo menos quarenta e cinco grandes exames sofreram vazamentos semelhantes. Num país com um sistema educacional angustiantemente competitivo e um mercado de trabalho cada vez mais sombrio — quase 40% dos formados com menos de vinte e cinco anos estão desempregados —, relata-se que tais vazamentos levaram dezenas de estudantes ao suicídio na última década.
Apenas três dias depois desse último vazamento, o presidente da Suprema Corte da Índia agravou involuntariamente a situação ao fazer um comentário comparando jovens desempregados a «baratas». À medida que a reação online crescia, Abhijeet Dipke, formado pela Boston University e residente nos EUA, brincou nas redes sociais: «E se todas as baratas se juntassem?» A proposta rapidamente reuniu apoiadores muito sérios, que se mobilizaram sob a bandeira do «Cockroach Janata Party» (CJP). Chamando a si mesmos de «voz dos preguiçosos e desempregados», logo direcionaram seus esforços para uma campanha juvenil de massa por reforma educacional. Num sistema público de educação quebrado, declararam, a responsabilização só começaria quando Pradhan renunciasse.
Não era uma exigência pequena. Dezenas de crises haviam surgido e desaparecido durante os doze anos de Modi no poder — da desmonetização, da noite para o dia, das cédulas de alto valor à má gestão generalizada da pandemia de Covid-19 — sem que um único ministro do gabinete renunciasse. Pradhan era um membro crucial tanto do BJP quanto do círculo íntimo de Modi, tendo garantido a vitória do partido no estado de Odisha. Pedir sua renúncia era desafiar o nível mais alto de um governo famoso por sua intransigência.

Em muitos aspectos, o CJP é uma organização estruturada: tem uma liderança declarada, porta-vozes oficiais e agora até mesmo um comitê de trabalho. Desde seus primeiros dias, porém, insistiu enfaticamente que não era um partido político nem ideológico, e logo contou com o apoio de grupos com visões concorrentes para o movimento. Organizações de esquerda como a All India Students Association (AISA) e a Students Federation of India (SFI) — ambas afiliadas a partidos comunistas indianos — vinham se mobilizando contra as políticas educacionais do governo havia vários anos, e ambas apoiaram as demandas do CJP. Habituados a protestar nos campi universitários e nas ruas de Délhi, esses grupos atraíram grandes contingentes de estudantes; também formaram blocos organizados dentro de uma manifestação de dissidência que, de resto, era em grande parte espontânea.
Na terceira semana de junho, uma constelação heterogênea de manifestantes começou a acampar em Jantar Mantar, uma rua secundária no centro de Délhi autorizada pela polícia como espaço da cidade para manifestações. Quando ficou claro que o governo tinha pouca intenção de responder às demandas dos agitadores, o destacado ativista ladakhi pela educação e pelo meio ambiente Sonam Wangchuk entrou em greve de fome em apoio à causa. Três estudantes da AISA juntaram-se a ele, invocando seu herói Bhagat Singh. Embora a AISA e Wangchuk discordassem em vários pontos cruciais — Wangchuk apoiava a controversa Política Nacional de Educação implementada pelo governo em 2020, enquanto a AISA exigia sua revogação completa —, continuaram jejuando lado a lado durante as três semanas seguintes.
Os líderes do CJP e Wangchuk sentavam-se num palco imponente numa das extremidades do modesto local, enquanto os estudantes montavam tendas menores dos dois lados. Durante todo o dia, batiam um tambor e entoavam palavras de ordem — «Viva a revolução!», «Dharmendra Pradhan, renuncie, renuncie!» — enquanto seus companheiros em greve de fome permaneciam deitados em plataformas baixas atrás deles. Logo, começaram a circular nas redes sociais imagens do educador de cinquenta e nove anos e dos estudantes dispostos ao sacrifício sendo amparados por auxiliares até mesmo para ir ao banheiro. Simpatizantes afluíram a Jantar Mantar em números cada vez maiores. Então, em 18 de julho, a polícia de Délhi entrou em cena. Levaram Wangchuk atrás de um cordão de lençóis brancos, alegando estar cumprindo ordens judiciais para hospitalizá-lo.
Os vídeos da operação se espalharam rapidamente pelas redes sociais. Se o governo esperava que a retirada de Wangchuk acalmasse os protestos, produziu exatamente o efeito oposto: da noite para o dia, ele se tornou símbolo da apatia do governo Modi diante da crise educacional do país. Dois dias depois, em 20 de julho, as ruas ao redor de Jantar Mantar estavam transbordando, muito além das expectativas de qualquer um, de manifestantes prontos para marchar até o Parlamento. A essa altura eu já havia decidido aparecer em Jantar Mantar todos os dias, na esperança de observar o movimento de perto.
Naquela manhã, a polícia havia classificado o ato como reunião ilegal, e placas na estrada que levava a Jantar Mantar advertiam as pessoas de que estavam infringindo a lei simplesmente por comparecer. Cinco estações de metrô nos arredores haviam sido fechadas e os serviços de internet móvel suspensos, de modo que as pessoas em uma parte do protesto não sabiam o que acontecia em outra. Confinada pela polícia e por forças paramilitares numa área minúscula — com menos de um quilômetro em seu ponto mais largo —, a multidão se empurrava em busca de uma saída. Abri caminho desde Parliament Street de volta à estação de metrô Janpath e depois em direção ao Press Club, na Raisina Road.
À medida que a manifestação se expandia para fora de Jantar Mantar, a polícia e tropas paramilitares da Rapid Action Force — poucos dos quais pareciam usar seus distintivos regulamentares de identificação — dispararam várias rodadas de gás lacrimogêneo contra a multidão. As pessoas ao meu redor correram em pânico, algumas quase atropelando umas às outras. Quando encontrei colegas a uma distância segura, um deles me disse que a polícia havia esvaziado o palco e derrubado as tendas que abrigavam os grevistas acampados no centro do protesto. A algumas ruas de distância, relatou um amigo, a polícia havia espancado com cassetetes manifestantes desarmados, deixando várias pessoas com membros fraturados e cabeças sangrando. Mais tarde, ao caminhar pelas ruas esvaziadas, vi manifestantes dispersos mancando com hematomas nas pernas. Sapatos e sandálias estavam espalhados pela via. Em poucas horas circulariam online vídeos de homens mascarados à paisana espancando manifestantes ao lado de policiais uniformizados; a polícia ainda não esclareceu quem eram.
Nas vinte e quatro horas seguintes, testemunhas publicaram vídeos, e veio à tona que agentes paramilitares haviam disparado contra a multidão com espingardas de «pellets» em outro ponto do centro de Délhi. Até então, tais armas, que alojam pequenas esferas metálicas sob a pele de quem estiver na linha de tiro, eram uma marca registrada das táticas das forças de segurança indianas na Caxemira, onde feriram milhares de civis, cegaram mais de uma centena e mataram mais de uma dúzia desde que foram introduzidas para controle de multidões em 2010. Os disparos ao redor de Jantar Mantar constituíram o primeiro caso conhecido de uso dessas armas por forças de segurança na capital nacional. Veículos de imprensa indianos e internacionais logo confirmariam que vários manifestantes haviam sido tratados em hospitais locais por ferimentos de pellets; pelo menos dois tinham sido atingidos diversas vezes no rosto e no pescoço.
Mas essas táticas violentas também logo se voltaram contra seus autores: ao cair da noite, enfurecidos com o tratamento brutal de seus colegas, centenas de manifestantes haviam retomado o acampamento demolido e as áreas ao redor. No dia seguinte, a multidão parecia ter quadruplicado. À medida que vídeos dos ataques se espalhavam pelas redes sociais, apoiadores de todo o país afluíam a Jantar Mantar. Alguns traziam comida e água; outros se voluntariavam para recolher lixo. Em dois dias, a multidão havia se transformado numa massa compacta de corpos, quase sem espaço entre eles. Enquanto isso, dezenas de protestos-satélite de diferentes tamanhos surgiram em cidades e localidades a centenas de quilômetros da capital. Em Jantar Mantar encontrei um operário de uma fábrica de calçados de Agra, um mecânico de bicicletas de Meerut e um contador com emprego estável em Délhi, todos presentes para apoiar os estudantes depois de assistir às cenas de violência. Tinham vindo, como me disse o mecânico, pelo «futuro da Índia».
Cada um dos grupos distintos que convergiam para Jantar Mantar trazia suas próprias queixas. Alguns estavam frustrados por não conseguir emprego havia anos, apesar das promessas do governo de que o mercado de trabalho melhoraria. Outros estavam cansados de ver o governo Modi redobrar a propaganda religiosa enquanto negligenciava questões como educação, saúde e o peso da inflação. Outros ainda queriam chamar a atenção para crises ambientais favorecidas pelo governo e por seus aliados bilionários. Muitos eram veteranos da organização contra o sistema de castas — Dipke é dalit e se declara ambedkarista —, enquanto outros, como vários me admitiram, eram apoiadores de longa data do BJP. O que começara como um protesto sobre educação havia se tornado uma mistura de todas as queixas possíveis contra o regime de Modi.
As ondas anteriores de protestos contra o BJP — incluindo as manifestações de 2019-2020 contra a Citizenship (Amendment) Act, flagrantemente antimuçulmana, e os protestos de agricultores em 2020 — haviam sido lideradas por grupos marginalizados. O Estado respondeu escolhendo essas comunidades, sobretudo os muçulmanos, como alvo de repressão violenta; não houve grandes protestos contra essa repressão seletiva. As lembranças desses episódios ainda estavam frescas quando os recentes protestos juvenis começaram, e muitos estudantes muçulmanos hesitavam em arriscar novamente sua segurança para aderir a um movimento que fazia pouca referência explícita à perseguição aos muçulmanos. Mas depois que a polícia passou a brutalizar também hindus de castas dominantes, algo começou a mudar. Ao se ver diretamente sob ataque pela primeira vez, a maioria se tornou mais ousada ao enfrentar o Estado. Alguns manifestantes, ainda que com cautela, chegaram a começar a criticar as ações antimuçulmanas do governo.

Essa mudança ficou mais evidente na maneira como os manifestantes alteraram seu alvo após o banho de sangue de 20 de julho. Agora, mais do que Pradhan, a maioria dos agitadores parecia dirigir sua raiva contra o próprio Modi. Ouvi vários grupos exigir a renúncia do primeiro-ministro, alguns gritando: «Sempre que Modi tem medo, coloca hindus contra muçulmanos». Grafites com «FUCK MODI» se espalharam pela área; palavras de ordem rimadas chamavam o primeiro-ministro de covarde, macaco e cafetão. Com frequência crescente, as pessoas também levavam caricaturas geradas por IA, muitas vezes misóginas, que retratavam Modi como uma prostituta voluptuosa «pedindo por isso» ou como uma tradwife servil rastejando diante de Donald Trump.
Mas a insatisfação dos manifestantes estava longe de ser unificada. Caminhando pela multidão depois de 20 de julho, não era difícil perceber as linhas de fratura. Quando grupos anticastas com bandeiras azuis gritavam «Jai Bhim» em homenagem a Ambedkar, jovens que admitiam ter tido até recentemente simpatias nacionalistas hindus gritavam em uníssono com eles. Uma ou outra pessoa chegava a tentar acrescentar «Jai Shri Ram» — marca registrada da retórica antimuçulmana — ao coro. Em certo momento, líderes do CJP, aparentemente na esperança de manter a aparência de que seu movimento não era «político», tentaram impedir os manifestantes de iniciar uma popular sequência de chamada e resposta pedindo azadi («liberdade»), associada às reivindicações de independência da Caxemira, posição considerada sediciosa pelo direito indiano. Estudantes de grupos de esquerda entoaram a palavra de ordem com entusiasmo mesmo assim.
Em certo sentido, a campanha devia sua energia e seus números justamente à sua postura não ideológica. Era uma geração de manifestantes que só conhecera a vida sob o BJP e, para muitos deles, rejeitar essa política parecia exigir rejeitar por completo os compromissos políticos. Ao afirmar que se concentravam em questões não confessionais, como vazamentos de exames, muitos manifestantes também argumentavam, na prática, que não mereciam a retaliação do Estado.
Nada disso impediu o movimento de adotar um estilo mais ousado do que qualquer outro dos últimos anos. Numa cultura que insiste repetidamente no respeito aos mais velhos e às figuras de autoridade, esses jovens manifestantes escolheram fazer da obscenidade sua língua franca. Vários exibiam cartazes sexualizados: «Papai, me bata», «Me prenda, mas faça isso de forma sexy», «Minha vida é tão abençoada que pude foder Dharmendra Pradhan no cu». É difícil exagerar o efeito desse novo tom: ele causou profundo dano à imagem estoica, quase de sábio, de Modi, que até então ele havia usado para se apresentar como figura paterna da nação.
Mas, depois da violência em massa, uma crítica política mais focada também começou a surgir em torno de Jantar Mantar. Recordando a recepção pouco cerimoniosa dada à Comissão Simon, novos grafites nas barricadas diziam «MODI GO BACK» e «SIMON COME BACK». Numa parede próxima, outro slogan em hindi evocava o oficial britânico que, em 1919, ordenou ao exército que abrisse fogo contra uma multidão de civis desarmados em Jallianwala Bagh, em Amritsar: «NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO É UM COVARDE. ELE É OUTRO GENERAL DYER». Numa coletiva de imprensa, o ex-ministro-chefe de Délhi Arvind Kejriwal, do Aam Aadmi Party, repetiu o sentimento: «O que o general Dyer fez em Jallianwala Bagh foi superado por Modi».
Se os manifestantes queriam conquistar a simpatia dos indianos em todo o país, sabiam que precisavam apelar para um sentimento universal de patriotismo. Ao longo dos anos, o BJP usou cinema, música pop e propaganda oratória direta para reforçar sua reputação de defensor histórico da Índia. Em novembro passado, Modi declarou que seu governo libertaria o país de sua degenerada «mentalidade colonial» ao reviver o passado hindu da região. Ao comparar o governo Modi aos colonizadores, um conjunto demograficamente amplo de pessoas em Jantar Mantar estava desmontando esse mito com notável sucesso.
O BJP repreendeu os manifestantes usando todos os insultos esperados, de «antinacionais» a «terroristas». Havia certa ironia nisso: as próprias origens do BJP estão em outro movimento estudantil de massa com táticas muito mais militantes. Na década de 1970, protestos em campi nos estados de Gujarat e Bihar se transformaram numa ampla agitação contra a corrupção governamental. Os estudantes, que bloquearam estradas e incendiaram prédios públicos, acabaram exigindo a renúncia de Indira Gandhi, então primeira-ministra. Embora liderados por um ativista em geral apartidário chamado Jayaprakash Narayan, os estudantes eram apoiados por uma improvável coalizão de adversários de Indira — incluindo integrantes do Jana Sangh, que mais tarde se tornaria o BJP. Uma parte importante da direção organizacional do movimento também vinha da Akhil Bharatiya Vidyarthi Parishad (ABVP), ala estudantil do supremacista hindu Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), organização-mãe ideológica do BJP.
Ao longo dos três mandatos de Modi, o governo do BJP literalmente reescreveu livros didáticos de história, glorificando figuras hindus e demonizando muçulmanas. No mesmo espírito revisionista, o partido parece ter trabalhado para apagar a memória do ativismo estudantil que foi tão crucial para sua própria ascensão. Agora que outro tipo de estudante confronta o governo Modi de maneira não muito diferente daquela como os antecessores do BJP confrontaram Indira, a história parece estar se repetindo — para grande inconveniência do partido governante.
Hoje, qualquer movimento juvenil que queira contestar seriamente a reivindicação de Modi sobre o passado e o futuro da Índia terá de enfrentar diretamente as dimensões nacionalistas hindus da repressão do BJP. Em Jantar Mantar, várias facções — especialmente grupos estudantis de esquerda — chamaram repetidamente a atenção para a manipulação governamental de casta e religião, muitas vezes recorrendo a ideias desenvolvidas por gerações anteriores do movimento estudantil sob o governo do BJP.
Em 2016, quando Modi estava no poder havia apenas dois anos, protestos estudantis explodiram por todo o país, tendo a casta no centro. O gatilho imediato foi a notícia de que Rohith Vemula, doutorando da University of Hyderabad, no sul da Índia, que se identificava como dalit, havia morrido por suicídio depois que as autoridades universitárias revogaram sua moradia no campus, acusando-o e a outros quatro membros da Ambedkar Students Association de agredir um líder estudantil da ABVP. Vemula negou energicamente a acusação, argumentando que estava sendo perseguido por causa de sua casta e de sua participação na organização ambedkarista contra o sistema de castas. «O valor de um homem foi reduzido à sua identidade imediata», escreveu em sua carta de suicídio, referindo-se à sua origem dalit. «Meu nascimento é meu acidente fatal.»
A quase mil milhas de distância, na Jawaharlal Nehru University (JNU), em Délhi, um pequeno grupo de estudantes entrou em greve de fome em solidariedade aos estudantes de Hyderabad. No mês seguinte, um grupo maior tentou marchar até o Ministério da Educação, exigindo a implementação da Rohith Vemula Act para conter a discriminação de casta no ensino superior. À medida que os protestos nos campi se espalhavam pela Índia — e a polícia respondia com ataques de cassetete —, circularam relatos de que o BJP havia pressionado as autoridades da University of Hyderabad nas semanas anteriores à morte de Vemula. (Ministros do BJP negaram qualquer envolvimento irregular nas decisões da universidade.) Logo estudantes e acadêmicos exigiam a renúncia de Smriti Irani, então ministra do Desenvolvimento de Recursos Humanos. O ultimato não teve efeito, embora Irani tenha sido «rebaixada» para o Ministério dos Têxteis numa reforma do gabinete cinco meses depois.
Durante aqueles meses de agitação, um doutorando muçulmano de vinte e oito anos da JNU chamado Umar Khalid emergiu como figura central do movimento mais amplo. Em fevereiro de 2016, a polícia de Délhi acusou a ele e a alguns outros estudantes de esquerda de «sedição» depois que organizaram um evento para marcar o aniversário da morte de Mohammed Afzal, um caxemir executado de maneira controversa por um ataque armado diante do Parlamento indiano em 2001. Simpatizantes nacionalistas hindus chamaram Khalid de «agente paquistanês», e ele se escondeu. Alguns dias depois, porém, entrou furtivamente no campus da JNU tarde da noite para falar a um grupo de estudantes diante de uma faixa com a inscrição #JusticeForRohith.
«Amigos, meu nome pode ser Umar Khalid, mas não sou um terrorista», disse à multidão. Falando por um microfone improvisado, destacou não apenas a injustiça de sua própria perseguição — «a maneira como, para citar Rohith Vemula, fui reduzido à minha identidade imediata» —, mas a crise que atingia todo o sistema de ensino superior da Índia. Desde que o BJP chegara ao poder, estudantes e professores acusavam o governo de reprimir a liberdade de expressão nos campi ao nomear aliados do RSS para altos cargos administrativos e tentar reformular currículos. Khalid declarou então que essa era «a luta de todas as universidades deste país». Era responsabilidade dos estudantes, insistiu, resistir à corrosão da educação sob o governo da direita: «Uma universidade que não ensina dissenso torna-se uma prisão». Dois dias depois, Khalid se entregou à polícia. Passou quase um mês atrás das grades antes de obter liberdade sob fiança.

Nos anos seguintes, os protestos estudantis se tornariam uma exceção notável numa esfera pública em grande parte intimidada. Em 2019, em meio à mobilização nacional contra a Citizenship (Amendment) Act, mulheres muçulmanas em Délhi lideraram um sit-in que bloqueava uma rodovia, apoiadas por estudantes da JNU e de duas importantes universidades muçulmanas, Jamia Millia Islamia e Aligarh Muslim University. A polícia invadiu os campi de Jamia e da AMU e atacou estudantes com cassetetes e gás lacrimogêneo; na JNU, uma multidão armada com barras de ferro e pedras espancou estudantes e professores e depredou prédios. Várias testemunhas disseram à Human Rights Watch que reconheceram diversos integrantes da ABVP na multidão, embora nenhum tenha sido oficialmente responsabilizado e o grupo tenha negado envolvimento. Em 27 de janeiro de 2020, durante um ato em Délhi, um ministro do BJP puxou o grito «atirem nos traidores», referindo-se aos manifestantes muçulmanos ligados ao sit-in. Aparentemente inspirado pelo comentário do ministro, três dias depois um vigilante disparou uma pistola contra manifestantes perto do campus de Jamia.
Semanas depois, outro ministro do BJP ameaçou resolver a situação por conta própria se a polícia não removesse os manifestantes que bloqueavam as rodovias da cidade. Grupos de homens hindus se reuniram em vários locais, e logo o nordeste de Délhi foi tomado pela violência, primeiro entre apoiadores e opositores dos protestos e depois entre hindus e muçulmanos. Uma mulher foi queimada viva, homens foram mortos a tiros e mesquitas, escolas e lojas foram incendiadas. A calma só foi restabelecida três dias depois, com a chegada das forças paramilitares. Foi a pior violência entre hindus e muçulmanos vista na capital em décadas: cinquenta e três pessoas morreram, trinta e oito delas muçulmanas.
Esses distúrbios coincidiram com a chegada de Trump a Délhi para sua primeira visita de Estado à Índia. Embora não haja evidência de que Khalid, que havia se formado mas permanecia ativista, estivesse sequer em Délhi naquele momento, sete meses depois a polícia de Délhi, subordinada ao governo central, o prendeu sob acusação de ter arquitetado a violência. Ele foi detido, juntamente com vários outros ativistas estudantis muçulmanos, com base na draconiana Unlawful Activities (Prevention) Act de 1967, que na prática permite ao governo manter pessoas em prisão preventiva indefinidamente e sem fiança.
Seis anos depois, Khalid e Sharjeel Imam, outro estudante de história da JNU, continuam presos. Num testemunho publicado no início deste ano, depois que a Suprema Corte negou liberdade sob fiança a ele e Imam, Khalid escreveu que encontrava força em saber que fazia parte de «uma história que será escrita para o futuro». Como lembrete, disse que havia gravado na parede de sua cela uma citação do caderno de prisão de Bhagat Singh: «Cada minúscula molécula de cinza está em movimento com meu calor / Sou um louco de tal modo que sou livre até na prisão.»
A essa altura, Khalid era visto como um perigoso revolucionário por direito próprio. Para as autoridades, a simples menção de seu nome nos recentes protestos juvenis era ameaçadora. Em Bangalore, uma mulher que carregava um cartaz «Free Umar Khalid» teve o cartaz confiscado pela polícia. Outra mulher no mesmo protesto, que havia segurado uma placa com a frase «Viva Umar Khalid», foi localizada pela polícia por meio de imagens de câmeras de vigilância; mais tarde foi aberto um relatório de ocorrência contra ela e uma investigação. Quando, segundo reportagem do The Indian Express, alguns manifestantes teriam levado cartazes «Free Umar Khalid» a uma manifestação de solidariedade em Goa, a polícia local deteve pelo menos duas pessoas e as interrogou para saber se conheciam o «histórico» de Khalid e se haviam gritado palavras de ordem em seu apoio — e, em caso afirmativo, quantas vezes. Entre os duzentos e quarenta itens do questionário entregue pela polícia estava a pergunta: «Qual é o seu entendimento das palavras “Free Umar Khalid”?» Link
Mas Khalid também havia se tornado um símbolo incômodo para os próprios manifestantes. Quando um ministro do BJP tentou difamar os protestos resgatando antigos tuítes de um porta-voz do CJP em apoio a Khalid, o dirigente do CJP em questão pareceu evitar expressar uma opinião sobre sua prisão, dizendo apenas que o grupo estava focado na reforma educacional. Essa hesitação decepcionou os aliados de esquerda do CJP, que argumentavam que a história de Khalid fazia parte da mesma luta estudantil. Várias semanas depois, Neha Bora, dirigente da AISA que havia entrado em greve de fome, declarou: «Umar Khalid não é uma questão de nacionalista ou antinacional… É uma questão de que tipo de país queremos construir.»
Alguns manifestantes tentaram censurar as menções a Khalid na multidão por medo de retaliação do governo, pedindo a outros que guardassem seus cartazes FREE UMAR KHALID. No entanto, vi outros participantes brandindo exemplares de Fractured Communities, a tese de doutorado recentemente publicada de Khalid sobre a história de grupos indígenas do leste da Índia sob domínio britânico. Um manifestante também levantou um cartaz escrito à mão, indício da importância do pensamento e da organização de Khalid, que recebeu aprovação particular nas redes sociais: «UMAR KHALID caminhou para que a Geração Z pudesse correr.» Link
Agora que eles também se viam rotulados de «terroristas antinacionais», talvez esse segmento de jovens manifestantes começasse a compreender o que Khalid vinha pregando havia muito tempo. Na visão dele, um governo autoritário só pode ser combatido se os estudantes construírem pontes entre suas lutas e as de muçulmanos, dalits, trabalhadores, comunidades indígenas e camponeses — isto é, se enfrentarem o nacionalismo hindu de frente. Embora a corrente principal dos recentes protestos estudantis tenha se esforçado para evitar esse tipo de ataque direto, após os protestos o próprio comportamento do Estado os está obrigando a abandonar a fachada de que suas ações não têm dimensão ideológica: voluntários muçulmanos sofreram detenções e violência de vigilantes, e em seu discurso do Dia da Independência Modi equiparou dissidentes a separatistas maoístas, chamando-os de «naxals intelectuais2». No início de agosto, Dipke, fundador do CJP, foi pressionado a admitir que Khalid merecia um julgamento justo.
Quatro dias depois da repressão impiedosa do Estado em Jantar Mantar, o movimento parecia desesperado por algum resultado concreto. A poucas centenas de metros do centro do local de protesto, na estrada para o Parlamento, observei centenas de manifestantes enfrentando a polícia e tropas paramilitares. Uma corrente de voluntários exaustos tentava impedir que setores da multidão intensificassem a confrontação. Então, inesperadamente, depois da meia-noite, Wangchuk encerrou o jejum. Ao compartilhar uma foto de dirigentes do BJP ao redor de seu leito hospitalar, disse que eles haviam prometido abordar no Parlamento as preocupações dos manifestantes. Menos de uma hora antes, Modi aparecera num vídeo do Instagram em estilo selfie, prometendo aprovar um projeto de lei de reforma educacional.
Os dirigentes do CJP expressaram alívio diante da perspectiva de recuperação de Wangchuk, mas se distanciaram de sua decisão de fazer as pazes com ministros do BJP e mantiveram o protesto sem ele. Online, enquanto isso, nem o vídeo cafona de Modi nem — como disse um usuário das redes sociais — seu horário noturno de «fuckboy» agradaram ao público da Geração Z a que se destinavam; uma enxurrada de reels zombou da câmera focada em suas narinas, do tom arrastado e das tentativas forçadas de parecer descolado chamando os manifestantes de «amigos».
No dia seguinte, a polícia disparou várias rodadas de gás lacrimogêneo em Parliament Street. Alguns manifestantes derrubaram barricadas; antes eu havia visto pessoas empoleiradas em árvores lançando garrafas de água vazias e paus contra os policiais, e agora um número maior arremessava objetos semelhantes do chão. A polícia, por sua vez, espancava os manifestantes que conseguia agarrar da multidão que recuava rapidamente. Minutos depois, Pradhan, o ministro da Educação, anunciou sua renúncia no X. (De maneira significativa, não admitiu qualquer irregularidade.)
À medida que a notícia se espalhava pela multidão, as pessoas gritavam e pulavam. Ecoavam os gritos «Vencemos!» e «Viva a revolução!». Algumas horas depois, o CJP, dizendo que o governo havia assegurado que não puniria os manifestantes nos dias seguintes, encerrou o protesto. Para a maioria dos participantes foi um dia de vitória, embora outros temessem que os protestos tivessem sido suspensos cedo demais, justamente quando o movimento ganhava força. Enquanto comemoravam com os amigos, alguns estudantes me disseram que se perguntavam o que mais poderiam ter exigido se tivessem continuado.

Nos dias seguintes, o ceticismo diante do ramo de oliveira oferecido pelo governo se mostraria justificado. Da noite para o dia, enquanto a polícia retirava pessoas e materiais do local, o governo começou a descumprir sua promessa de não retaliar. Mais de cem manifestantes pelo país passaram a enfrentar acusações criminais; The Indian Express informou que a polícia de Délhi, vasculhando pilhas de lixo em Jantar Mantar à procura de embalagens identificadas, mirou restaurantes da cidade que haviam fornecido comida aos manifestantes. Tentando salvar a situação, o CJP ameaçou restabelecer o acampamento. O governo então se apressou em assegurar ao CJP que cumpriria sua parte do acordo — embora, mais de um mês depois, ainda se recuse a fornecer à Suprema Corte uma lista dos relatórios de ocorrência contra manifestantes para que o tribunal possa arquivar os casos. Link
O regime Modi parece estar esperando que o descontentamento desapareça. Líderes da oposição pedem um debate parlamentar sobre os protestos, mas o governo se recusa a sentar-se à mesa. Pradhan foi substituído por outro ministro da Educação, Pralhad Joshi, possivelmente ainda mais supremacista hindu e com menos qualificações acadêmicas que seu antecessor. (Em 2022, Joshi defendeu a libertação antecipada de onze homens hindus condenados pelo estupro de uma mulher muçulmana.) Enquanto isso, a polícia de Délhi ordenou às plataformas de redes sociais que removam qualquer conteúdo com aquilo que uma reportagem chama de «comentários ofensivos» contra o primeiro-ministro. Link
Em 31 de julho, Modi publicou outro vídeo em selfie «perdoando» as «crianças travessas» que haviam usado linguagem ofensiva contra ele, mas um exército de trolls online — que, em outro caso, The Washington Post relacionou diretamente à infraestrutura de TI do BJP — continuou bombardeando mulheres manifestantes com ameaças de estupro e morte. Uma garota de quinze anos que chamou o primeiro-ministro de «pau» foi obrigada a se desculpar publicamente por causa de uma campanha de ódio que já forçou ela e sua família a se mudarem.
O movimento, porém, parece continuar. Nos últimos meses, de modo geral, deixou a capital e avançou para o interior do país. No estado oriental de Jharkhand, estudantes universitários entraram em greve de fome para protestar contra irregularidades num exame estadual de emprego. Delegações tanto da AISA quanto do CJP viajaram a Jharkhand em apoio antes de iniciarem, separadamente, turnês nacionais de mobilização. Depois de quase um mês de protestos, os estudantes de Jharkhand suspenderam a mobilização quando o governo estadual, que não é aliado do BJP, aceitou algumas de suas demandas. Mais recentemente, em agosto, a polícia do estado de Bihar, governado pelo BJP, usou canhões de água contra manifestantes que marchavam até a casa do ministro-chefe para exigir que o estado administrasse seus exames de recrutamento de maneira mais justa. Um painel de estudantes, parte dos protestos mais amplos relacionados à educação em Bihar, mais tarde concordou em encerrar a mobilização depois que o governo cedeu a uma importante reivindicação.
O desenvolvimento mais surpreendente é a ampliação da base do movimento. Crianças em idade escolar em várias partes da Índia entraram em greve para exigir mais professores e melhores instalações, uma tendência que usuários das redes sociais descreveram como «a Geração Alpha se levanta». O CJP, que escolheu continuar sendo um grupo de pressão em vez de entrar na política eleitoral, adotou agora a educação primária como sua próxima grande causa.
A natureza difusa do movimento é ao mesmo tempo sua força e seu maior desafio. Embora não faça sentido esperar que qualquer protesto de massa seja doutrinário, também seria insensato tentar separar as falhas administrativas do BJP de seu claro projeto ideológico. Se o movimento quiser manter a pressão e, por fim, forçar alguma mudança eleitoral consequente, com toda probabilidade terá de combinar suas demandas ecumênicas com uma acusação mais explícita contra a incansável política divisória do BJP.
Gerações de manifestantes estudantis do país enfatizaram precisamente esse ponto. Seis anos depois de sua prisão, Umar Khalid escreveu uma carta pública a Rohith Vemula: «Caro Rohith, numa noite fria e estrelada, olho para o céu da minha cela. Vejo a estrela mais brilhante e imagino que seja você sorrindo para mim lá de cima.» Khalid desejava que Vemula estivesse com ele em liberdade, para que pudessem não apenas comparar suas «frustrações» e seus «romances», mas «debater e decifrar o que deu errado na vida desta República». Para ele estava claro que esse tipo de consciência política entre os estudantes era exatamente o que o governo tentava desesperadamente impedir. «Ao empurrar você para a morte e me colocar na prisão, garantiram que essa conversa nunca pudesse se materializar», escreveu. «Porque é isso que o regime teme: jovens que pensam.»
Poorna Swami é escritora, tradutora, pesquisadora e coreógrafa de Bangalore, Índia.
Ela escreve sobre artes e cultura, literatura e política. Seus ensaios, críticas e reportagens foram publicados, entre outros veículos, em The New York Review, Lux, no blog da London Review of Books, The Caravan, Open e Mint-Lounge. Sua poesia foi publicada em revistas como Indiana Review, Hayden’s Ferry Review, Indian Quarterly e Prelude.
Entre 2015 e 2017, Poorna foi editora-at-large para a Índia da revista trimestral internacional online Asymptote e coeditou o primeiro dossiê especial da revista sobre poesia em línguas indianas traduzida para o inglês. Em 2018 recebeu o Srinivas Rayaprol Poetry Prize para jovens poetas indianos. Também recebeu o Jawad Memorial Prize em 2023, uma mentoria ALTA Emerging Translators em 2024 e o prêmio PENxSALT Translates em 2026 por suas traduções do urdu.
Aos sete anos, Poorna começou a estudar Bharatanatyam, forma clássica de dança indiana, antes de ampliar sua formação para a dança contemporânea e técnicas pós-modernas. Seus trabalhos coreográficos frequentemente atravessam disciplinas, mas estão enraizados em investigações formais do corpo. Suas obras foram apresentadas tanto na Índia quanto nos EUA, mais recentemente na G5A Foundation for Contemporary Culture, no 1 Shanthi Road Studio/Gallery, na Chatterjee & Lal e no Serendipity Arts Festival. Em 2018 recebeu uma bolsa danceWEB no ImPulsTanz – Vienna International Dance Festival.
Poorna é bacharel em Dança-Teatro e Inglês pelo Mount Holyoke College. Atualmente faz doutorado em Estudos do Sul da Ásia e Estudos de Mulheres, Gênero e Sexualidade na Harvard University.
Notas do tradutor
Bhimrao Ramji Ambedkar (1891-1956), jurista, economista, político e reformador social indiano nascido em uma comunidade dalit, foi uma das principais figuras da luta contra o sistema de castas. Presidiu o comitê de redação da Constituição indiana e foi o primeiro ministro da Justiça da Índia independente, tornando-se uma referência central dos movimentos dalits e anticastas.
Naxal: termo que designa na Índia militantes e movimentos comunistas revolucionários de inspiração maoísta. O nome deriva de Naxalbari, uma localidade de Bengala Ocidental onde, em 1967, eclodiu uma insurreição camponesa que deu origem ao movimento naxalita. Por extensão, o termo é por vezes utilizado de forma pejorativa para qualificar militantes ou intelectuais acusados de simpatias maoístas ou de hostilidade radical em relação ao Estado.
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